segunda-feira, 25 de julho de 2011

Caio Fernando Abreu -1987

    
     “Stones that rolls too much do not create moss” – my grandmother used to say when she spoke about a nephew, called Francisco. Nobody knew where he was at the moment. It could be Porto Alegre, Rio, São Paulo, Paris or even Alexandria. He spent seven years even in Egypt. Francisco was a perfect example of what a good boy should never do: walking around, moving around, and living as easily as he changes his t-shirt. To my grandmother, stones should sit quite in its place, creating one thick layer beneath moss blue whiting.
      
       Well, a few years later (already on the road), i met Francisco and he was such a great guy. He had seen a lot    of places, met different people, lived and felt things that most people only think about it, but do never have the courage to do it. I was delighted: He was a “large” person. After that, i realized why i used to thing that “moss” it is something so boring!
       
       People are always asking me: By the way, where are you living now? To be honest: i do not know the answer. It may be here, there, or a little here and there. Other day, someone complained that my address occupied many page of their notebook with of course, crossed scratches. In the past, i used to feel upset with all that: nomad life. Now, im more used to and don’t suffer anymore. There are things in our life; we have only to be used to: the way it has to be. It’s kind of what Americans calls “relax and enjoy”.   

     I don’t know how many times i moved from city to city. I lived in Santiago, Rio Grande do Sul, Porto Alegre, from there to St. Paul, then Campinas, Rio de Janeiro, a bit of time in Florianopolis, Bahia, Paris, London, Stockholm, a bit more in Rio, and so on. In São Paulo ive lived at least four times, always saying i will never go back here, but i keep coming back. Now I'm somewhere between Ibirapuera and Vila Nova Conceicao, which i still could not figure out the name. I know theres a market right to my street on Tuesdays .. I think, for the first time, its such a great thing. But i don’t know until when ill think that the market is cool. .

     Actually, i know until when. The feeling goes away slowly, its hard to explain, but its something that somehow starts until see the things not as right as before. You get used with it or with them. Its like getting bored with the chair or old stove. When everything begins to look the same and you start moving the same way like if someone had turned you on at the automatic mode: without feeling! So, it’s time to move on. It doesn’t has to be from the country or city. But, maybe neighbourhood. There’s nothing more excited than seeing everything different: streets, people, market, weather etc. Most of people i know, live completed unobservant. It seems that they are so used with...that they walk as if they were sleeping.
 
     I'm not saying everyone should do the same thing, or that it is right way to live. 
In my mind, the right is everything that gives pleasure to us, since - of course - that does not harm anyone. Then, I also think there are many ways to “wake up” of this “asleep” life. From time to time, you can read a book or watch a provocative film. One weekend, go to a bar or a neighbourhood where you’ve never been before. Or beat a good chat, those true, with a new person. What cannot start thinking is: everything is equal! Because then, the creature will gain weight in and creating the kind of belly that I call "mental belly."Some fats inside your brain that gives a slow way of thinking and take off the pleasure from everything.

     Of course, to live jumping from branch to branch, also has its disadvantages. How many correspondence we’ve lost, for example? It is absurd. 
And how many wonderful people, that suddenly, becomes far harder to see? But I also think that what is true and strong, and important - thing or person - in your life, it will never be lost. I just remembered Ros who said that " We do not have to cringe at the distances and clearances painting. The advantages? Oh, it also has. The best is meeting people. There's nothing better (or worse) than get to know new individuals. And in my opinion, is not planted in the same place, always walking the same streets, repeated year after year the same programs, you will meet new people.

      If i will stay here??? I’m staying!!! The market is close to my door, the owner of the bar knows me already. Yesterday, i started a new job and home is starting having my smell. But when I see on the map an island called Java, with port of Surabaya, bands of Asia – I start desiring to go there. It just needs to be patient until the day i wake up one morning and see the moss showing its color. Because, i believe while im health or not find someone or something which keeps me in a place forever, i will keep discovering things. And my grandmother will be always upset.


Pedra rolante


“Pedra que muito rola não cria musgo” – dizia minha avó quando falava de um sobrinho, Francisco. Ninguém nunca sabia direito onde ele andava: podia ser Porto Alegre, Rio, São Paulo, Paris ou Alexandria. Não é jeito de dizer, não. Ele passou mesmo vários anos no Egito. O Francisco era um exemplo perfeito do que um bom rapaz não deve nunca fazer: andar por aí assim, mudando de cidade, de trabalho, de vida, com tanta facilidade como quem muda de camisa. Pedra que se preza, para minha avó, devia ficar parada e quietinha no seu lugar, criando embaixo aquela camada grossa de musgo verdinho.


Bom, uns anos depois, já na estrada, conheci o Francisco e achei ele ótimo. Tinha visto uma porção de lugares, conhecido um monte de gente, vivido e sentido coisas que a maioria das pessoas só imagina e não tem coragem de viver. Fiquei encantado: ele era uma pessoa larga. Largueza, para mim, é qualidade muito importante nas pessoas. Foi então que entendi melhor porque sempre tinha achado musgo uma coisa muito chata.

As pessoas vivem me perguntando: “Mas, afinal, onde é mesmo que você está morando?” Nem sempre sei responder. Pode ser aqui, ali, ou um pouco aqui, outro ali. Outro dia alguém se queixou que só de endereços meus tinha umas duas páginas ocupadas (e riscadas) na cadernetinha. Até pouco tempo atrás, confesso, eu mesmo ficava angustiado com essa inquietação toda. Agora estou mais acostumado. Tem coisas da gente que não são defeito nem erro: são só jeito da gente ser. O negócio é acostumar com isso e não sofrer. Aliás, o melhor jeito, em relação a qualquer coisa, é sofrer o mínimo possível. Aquilo que os americanos chamam de relax and enjoy – mais ou menos “relaxe e curta”.

Não sei dizer mais quantas vezes mudei de casa e de cidade. Fui, por exemplo, de Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, para Porto Alegre, de lá para São Paulo, depois Campinas, Rio de Janeiro, um tempinho em Florianópolis, na Bahia, em Paris, em Londres, Estocolmo, mais um pouquinho no Rio, e por aí vai. Só em São Paulo já morei quatro vezes, de ir embora jurando nunca mais voltar, e voltando sempre. Só em Sampa, já passei pelo Jardim América, pela Bela Vista, Vila Madalena, Jardim Paulistano, Pinheiros, Sumaré, Centro da cidade – agora estou num lugar entre o Ibirapuera e Vila Nova Conceição, que ainda não consegui descobrir o nome. Sei que tem uma feira bem na minha rua, às terças-feiras.. Estou achando um grande barato ter, pela primeira vez na vida, uma feira aqui na porta de casa. Mas não sei até quando vou achar isso.

Minto. Sei, sim. Não é de repente, é mais aos pouquinhos que acontece. Difícil explicar, mas vai dando uma coisa de você não ver mais direito nem as coisas nem as pessoas que estão à sua volta. Você vai acostumando com elas, assim como acostuma com uma cadeira, uma mesa, um fogão. Quando tudo começa a ficar igual todos os dias e você, sem perceber, começa a se movimentar como quem liga o automático e, feito robô, apenas faz coisas, sem sentir o que está fazendo – bem, para mim é porque está na hora de dar o fora. Aí a gente muda. Se não dá para mudar de cidade, muda de casa, muda de rua, de bairro (cá entre nós: massa mesmo seria poder mudar de planeta). Não há nada mais estimulante do que ver ruas e pessoas pela primeira vez. Você tem que fazer um superexercício para conseguir descobrir os jeitos particulares delas se comunicarem – sim, porque tudo isso tem um jeitinho particular. Você é novo. A maioria das pessoas que conheço vive muito desatenta de estar vivendo: elas parecem tão acostumadas com as coisas que estão em volta que é como se estivessem dormindo.

Não digo que todo mundo deva fazer a mesma coisa, e que isso é o certo. Na minha cabeça, certo é tudo aquilo que dá prazer da gente fazer, desde – claro – que não prejudique ninguém. Depois, também acho que para acordar dessa espécie de sono limoso tem muito jeitos. Pode ser ler um livro ou ver um filme provocante, de vez em quando. Num fim de semana, ir a um bar ou a um bairro onde a gente nunca foi antes. Ou bater um bom papo, daqueles verdadeiros, com uma pessoa nova. O que não pode é começar a achar tudo igual, porque aí a criatura vai engordando por dentro e criando aquele tipo de barriga que eu chamo de “barriga mental”. Umas gordurinhas no cérebro que deixam o pensamento lerdo e tiram o prazer de qualquer coisa.

Claro que viver assim, pulando de galho em galho, também tem suas desvantagens. O que se perde de correspondência, por exemplo, é um absurdo. E tem gente maravilhosa que, de repente, vai ficando longe, difícil de ver – e aí dança. Mas também acho que aquilo que é bom, e de verdade, e forte, e importante – coisa ou pessoa – na sua vida, isso não se perde. E aí lembro de Guimarães Rosa, quando dizia que “o que tem de ser tem muita força”. A gente não tem é que se assustar com as distâncias e os afastamentos que pintam.  Mas, vantagens? Ah, isso também tem. A melhor delas é conhecer gente. Não tem coisa melhor (nem pior) do que gente. E, na minha opinião, não é plantado no mesmo lugar, caminhando sempre pelas mesmas ruas, repetindo ano após ano os mesmos programas, que você vai conhecer pessoas novas.

Se fico por aqui? Vou ficando. A feira na porta de casa me encanta, o dono do bar da esquina já começou a me cumprimentar. Ontem mesmo comecei um trabalho novo, e a casa recente está pegando o jeito que gosto. Mas quando vejo no mapa uma ilha chamada Java, com o porto de Surabaya, nas bandas da Ásia – que dá uma vontade de ir pra lá, ah, isso dá. Questão de paciência. Pelo menos até o dia que eu acordar de manhã e perceber aquela camadinha de verde musguento avançando. Porque, no que depender de mim, e para desgosto de minha avó, enquanto tiver saúde vou rolando até encontrar qualquer coisa (ou pessoa) tão fantástica que me dê vontade de ficar ali para sempre. Cá entre nós, se for só a morte, também não me importo nem um pouco.